quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Apresentem-se, por favor!

Ah, sim, temos um nome! E isso já é o suficiente para nos considerarmos vivos. A idade - nós dizemos na época da escola, para preenchermos o silêncio da pouca experiência e da sensação de não sabermos o que será do amanhã. Afinal, a última aula do dia era a de Educação Física.
Depois de nos domesticarmos e seguirmos algumas leis que podem ser chamadas de “realizações”, ir além do próprio nome fica ainda mais difícil.
Em um dia primeiro, a sala de conversas estava esfumaçada com vozes, cores e com o perfume das chegadas. Pouco dava para perceber além das tonalidades dos paletós e da alegria exposta em algumas pessoas que se encontram depois da chamada férias... Pilhérico como depois delas as colegas que se encontravam pareciam estar ainda mais felizes, talvez pela não-obrigação... Oras!
Enquanto a porta - em seu zig-zag - não cessava, uma voz ainda mais alta se colocou: “apresentem-se, por favor! Pois temos uma pessoa nova entre nós.”
O falatório terminou.
Quem sou eu? Será que sou alguém? O que fiz até hoje me faz ser alguém? Que sei do que serei, eu que não sei o que sou? Sou o que penso? Mas eu penso tanta coisa... Sou o que fiz? Mas o que fiz é relevante para contar?
Como nunca dá tempo para pensar em tudo isso, a resposta acaba sendo um institucional de nós mesmos. Mas sempre surpreende tentar enxergar a caminhada de cada um, que por muitas vezes está colocada no corte de cabelo, para não dizer de coisas outras que aparecem muito mais nas mulheres, seres naturalmente expostos. Ainda que, ainda que... Bem, disse a professora, que era então de biologia e amante das células e do que tem forma e não se pode ver a olho nu.
Adiante, outra se colocou revelando o arqueado de sua sobrancelha; defendeu tese em Dalton Trevisan, o vampiro de Curitiba, que escutava atrás das portas.
Nos olhares que foram se seguindo, houve um que na boca pouco se colocou, as amigas memoraram um jantar oferecido por ela depois do estudo de o banquete de Platão e das palavras que as receberam tendo um final mais ou menos assim: “quem aprende mais, ama mais”. Nenhuma voz, mas gotículas apareceram nos olhos dessa mulher que se adentrou.
Importante o amor que se dá ao fazer a mesa, a cama, a palavra posta.
Outras apresentações soaram naquela tarde com ventos uivantes e gelados, opostos a uma cidade quente. Cidade apresentada como uma donzela atenta aos últimos lançamentos de cosméticos e meninos nomeados por colunas de jornais. O gato sem nome da bonequinha de luxo muito sofreria por ali, onde tampouco é Nova York. Sem contar a apresentação do som de duplas sertanejas... Quando nem sempre se está apaixonado e largando tudo, ainda que em idade considerada decente para tanto.
Mas naquele espaço, as apresentações eram escutadas assim como as gotas de café entre um gesto e outro. Pães frescos, olhares atentos ao que se diz e à procura do que ainda não foi falado.
“Apresentem-se, por favor!” Dizia novamente a voz que mediava as dispersões.
Sacrifício da existência a palavra. Apresentemo-nos para fazer ruir o fato de estarmos vivos.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Para João

Depois que mudei três vezes de andar, encaixei o piano no estreito elevador e expus os quadros nus na praça central, em sobressalto de atraso, resolvi escrever. É verdade que ando distante de seus pensamentos... Isso me entristece, não por vaidade, mas sei; dentro desse deus-nos-acuda que é você, talvez você tenha, talvez você tenha: “tenha me esquecido!” E foi então que decretei luta corpórea contra o tempo e decidi dar um basta, não dá mais para ele ir se fazendo sem minha permissão. Nessa roda parada, ando desenhando pequenos atos em cartas de amor, mas não consigo deixar de achar que devo escrever sobre os cinco minutos da mulher antes de se levantar. Tracejar para você a textura do lençol sussurrando no lado de dentro das pernas e nos brancos leitos jorrados do corpo, refém dos mais guardados e aguardados desejos. Desejinhos, aliás, nessas horas não dá para exigir muito por trás da brancura que esconde os lábios mordidos, da sombra que escorrega pelas beiradas da pele dançante. Pelos saltando das pontinhas hirsutas da pele: um a um se erguendo lentamente, buscando brandas performances, sendo mais do que esconderijo da cútis. Peles e apelos em suspensão, as paredes-quatro implorando a retirada da mínima regatinha, para que partes encobertadas possam ser acariciadas pela mantinha fina, transparente e perigosa. Os pensamentos argutos impossibilitando que alguém bata à porta e se surpreenda com toda a intimidade exposta cheirando à manhã...  
Será que consigo? Será, João?

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Nessa angústia pela velhice

Pedi para que ao menos trinta anos corressem, mas no vão fiquei exausta de tanto colocar a noz para trabalhar... Sentimentos assim madurinhos demoram tempos para serem nomeados. As marcas aparecem quanto mais distraída e exausta eu estiver...  
Sem resposta, desisti de mim.
O que gosto em você é essa vida que não se gosta, como um novelo de lã que já bordou um milhão de toalhas. Porque, meu amor, em cada veia-país das suas mãos tem um rio correndo. Cada pequena ruga dos pés até o último fio branco saltado em sua cabeça traduz a beleza de quem tanto construiu e desconstruiu. Quantas histórias-vidas, desencontros... Amores passados do ponto e os que ainda se escondem na saliva mais lenta, caída nessa última porta que deixou seu coração com dor; como sangue pisado.
Os seus filhos tão grandes, tão maiores do que eu. Meninos em que você desacretidou e, por excesso de amor, demorou a olhá-los como são. E agora têm os netos, as papinhas e aquela coisa de que a gente faz tudo para no fim voltar para o mesmo lugar.
Esses seus olhos tão densos, quantos segredos guardam e quantos já se perderam? Nessa sua conversa que começa de agora para frente e me deixa sem saber o que ficou para trás. Sem contar o sono que você diz ser sagrado, e eu querendo não dormir e funcionar sem parar, ficar como boba olhando seu corpo cansado e ouvindo seu jeito de dizer que vai cochilar; “só mais cinco minutos”.
O telefone no plano mais caro e com fio. A vitrola e os discos escutados sem o mínimo barulho das entranhas da porta. A música que transporta... Como um artista que leva seu público para outro lugar. O canto da transcendência e o tempo paralisado. Na música que para você não é ruído, mas movência sagrada.
 Será que um dia você vai me contar o que em forma está, será? Você disse que há coisas que não podem ser ditas... E caminho, assim, com esse silêncio de agudos e gritos de peles. Será a forma o que chamam de velhice? A mesma que é bela? De alma dançante, esperta, sabida... De marcas infinitas e olheiras rasgadas?
Você é como as muralhas de Machu Picchu e as moças diferentes do Rio de Janeiro... A cultura talvez dê tempo para correr atrás. Mas esse sentimento todo, esse todo sentimento do mundo, essa música de ritmo já relido... Qual será o original? Não adianta pensar porque quando me surpreendo com qualquer coisa, você me devolve a surpresa com risos de quem já sabia, e minha ânsia por envelhecer fica cada vez maior.
 Nessa época de vampiros insaciáveis, virei morcego para voar e tentar alcançar você e todo esse seu infinito dito particular.




terça-feira, 14 de junho de 2011

Trio

"Cada qual sabe amar a seu modo; o modo, pouco importa; o essencial é que saiba amar." Machado de Assis

Havia o silêncio nos olhos e uma trava no final da língua que não deixava nada engolir. Eram três estranhas. A intimidade uterina não lhes servia para nada, senão para se amarem e se desamarem com a mesma comoção. Não se olhavam nos olhos por medo, por forma igualmente rasgada e chorosa. Nos olhos, insistentemente neles, estavam as sobras de toda uma família que desmoronava em águas ancestrais e que embora houvesse, não havia por dentro. De sombra pesada e sorrisos, os caninos afiados também faziam parte igual desse trio, além do sentimento ancorado nas costas como paixão cristã, que parecia durar por toda uma vida.
Nem um almoço de domingo com vinho, aquele trazido pelo avô do sul, prometia em goles múltiplos amenizar a força que fazia os ombros dessas meninas, nada revelava doçura em palavra qualquer dita e que as fizessem irmãs. Afinal eram sim, não tinha como não serem. Havia uma realidade exposta mesmo sem verbo colocado. Talvez pelo ar, talvez pelo silêncio tácito da palavra que não podia ser dita e muito menos resolvida. Ah, eram irmãs assim.
No domingo cumpriam o calendário e a união, mas sem prece atrás das cadeiras. As meninas não rezavam, pois o tempo naquela escuridão foi Deus e passou uma massa corrida nas lembranças relembradas com dor. O tempo tivera então distraído toda a falta de enquadramento daquelas três que falavam nas entranhas do implícito amor; que o pai nunca tivera sentado na ponta mesa, nunca tivera discursado como um rei, nunca - nunca que elas se lembrassem.
          Na mesa sem direção, o pai parecia alertá-las depois do já acontecido, ele sabia ensinar, mas mudo assistia aos tropeços das meninas que tropeçavam cada dia mais e mais e mais. O tropeço tornou-se então o pai, mais atuante do que aquele senhor que tinha a razão e não a expunha, e que ainda assim era o homem que tanto condenava.
Errar é rotina para quem nasce ao contrário e de ponta cabeça é apresentado para o mundo. Para as meninas então... E, no entanto, elas tentavam não errar aos domingos. Não se pode arriscar no domingo. À tarde beijavam-se como de costume: numa rápida despedida e não com menos amor. Depois se trancavam, cada uma a seu modo, mas valendo-se daquilo que sempre tiveram em comum; do silêncio do que mais uma vez não foi dito e dum amor que não tem senão aquilo que se sente.     

terça-feira, 31 de maio de 2011

Cinco e vão

É quando você menos merece e me assusta com sua confusão, quando meteoritos caem sobre esse lar. Nesse entra e sai de gente e, em vão, você me pede para esquecer. Quando você diz que sou sol e você lua, um entardece e o outro continua. Suas palavras imperdoáveis e não há nada a fazer. Digo que amo assim, você no sim, sem tempo de pensar em respiração.  

Pedras ancestrais das minas, chuva de granito no primeiro carro, água quente nas reservas, chope gelado no pinguim e quando cheguei... Lá se foi o trema. Cabelos crescendo, beijo pelas beiradas, café da manhã e violão; terra e seus errantes navegantes, Pessoa na pessoa e rosa no Rosa. Eu presa às vitrines, valsando lirismo. Você Clarice e eu Machado. Você blues e eu bossa. Você para dentro e eu para fora. Filho Miguel, filho Vicente, filho que ainda nem sente, mas ente virá como estrela cadente caindo no colo, espirrando leite nos colchões. 

Sem contar a forma, a norma, a sua língua domada, exata e seca e dura e, e, e. Será que dá para entender Mallarmé? Sem sentimentalismo, ai, mas e o conteúdo? Sua mente cansada de tanto de mentar, eu querendo ver tudo acabar num belo dia de amores e cachorros correndo pela praça, açaí na tigela e depois sono e sonho. Brigadeiro na colher e à noite quibe cru. Viagem a Paris, prêt-à-porter da Chanel e você quer visitar o Louvre. Romantismo há, ainda que... Sei não, como se ama por lá?

Mas se nessas e outras você precisar ir e eu ficar... Ah, não! Sou filha da revolução, tudo tem jeito para dar! Separação é coisa para quem ama de segunda vez, a minha é inteira primeira, certeira, sem ix, sem is, sem fim.   


sexta-feira, 20 de maio de 2011

Sobre Exposições

Uma tarde tediosa de sábado, sem programações na vida real, e muito menos na televisão. Entre um assalto a geladeira e outro, um pedaço de papel em cima da mesa de jantar lhe chama atenção. Não sabe quem o deixou ali, mas ao bater o olho sentiu que sua tarde de sábado estaria solucionada. Rapidamente tirou o pijama que vestia há mais de 12 horas, agasalhou-se para enfrentar o frio, e partiu.

O endereço era próximo, foi caminhando, era o típico de passeio que ela adorava, ainda mais com aquele clima propício. Chegou ao local, nunca o tinha percebido antes, era discreto, sem muito alarde, um pequeno anúncio na porta e a movimentação de poucas pessoas para o evento. Tal evento não era muito comum naquela região, era uma exposição de arte.

Logo na entrada conheceu o artista, um senhor de meia idade, cabelos grisalhos, olheiras fundas, barba por fazer, tinha seu charme...como todo artista. Com muita simpatia recebia a todos com um belo sorriso, e se oferecia para explicar um pouco o significado do seu trabalho. A maioria das pessoas não prestava atenção, ia direto para as obras, olhando-as com veemência, com urgência, com pressa para tirar conclusões.

Ela parou no salão principal, não olhou as obras, tampouco ouviu o artista e suas explicações ensaiadas...se prendeu na observação das pessoas que ali estavam, suas ações e reações. Ah, ela adorava observar o comportamento humano. Era gente de todo tipo e estilo, aqueles que sabiam exatamente o que faziam ali, provavelmente acostumados a tais ambientes e trabalhos, gente curiosa, gente que entrou por acaso, pais ensinando arte aos filhos, excursões de colégios e faculdades, amigos e familiares prestigiando o artista...e ela, filmando tudo.

De repente ela entendeu o significado da “exposição”. Não era exposição das obras, era o artista que estava exposto, escancarado, enquanto todos tentavam entender quem era este homem, como ele pensava e o que acontecia com ele. Ele se expressou através de tintas a óleo, de cores, de desenhos e rabiscos. Os visitantes o analisavam como se fossem seus terapeutas, o julgavam como se ele estivesse no banco dos réus, o qualificavam como se fosse um calouro. E ele? Ele tentava se fazer ouvido através de um sorriso tenso e palavras extraídas de um roteiro decorado para agradar o público.

Ela tentou ser diferente, olhar as obras sem pré-conceitos, segregando-as do senhor que ficara logo ali a poucos metros. Impossível. Ao olhar uma imagem de mulher chorando ela imagina se seria mãe, irmã, esposa, ex-namorada, amiga...e o motivo que a levara às lágrimas. Em uma paisagem bucólica anseia por saber se tal lugar tão belo realmente existe, e se fez parte da vida do senhor...talvez tenha sido criado lá, pensa intrigada. E assim foi, interpretando uma a uma, tentando não ser tão julgadora, coisa que outros na sala o faziam em alto e bom tom...de deboches a elogios exacerbados, cada qual igualmente pesados de serem ouvidos.

Ao sair, parabenizou o artista, e o fez de forma sincera, de coração. Não entende tanto daquele tipo de arte, apesar de ter gostado do que viu...porém mais do que isso, lhe parabenizou pela coragem de se expor a desconhecidos, de se abrir a interpretações alheias, de permitir palpites, críticas, elogios, e até mesmo ofensas. Ela sentia tanta dificuldade em lidar com isso nas atitudes, sentimentos e palavras inevitavelmente expostos no dia-a-dia, que o admirou demais por fazê-lo como profissão.

Seria este o verdadeiro trunfo da alma de artista? A capacidade de ser vidraça, vulnerável ao ataque de eventuais pedras, sabendo se defender e se reconstituir quando atingida? Ou até mesmo quando coberta de flores, ainda conseguir ser aquela vidraça original, simples e talentosa em sua função, sem desmerecer suas semelhantes que se encontram trincadas? Em meio a tais reflexões, vestiu o casaco e saiu caminhando rumo a sua casa...ela e sua discreta e medrosa alma de anônima.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Persona 1


Nem um blues, time keeps movin’on! Nem Chivas Regal para segurar o sono da meia-noite. Nada, nada. Nenhuma conversa desnuda, só medo do desejo. Será possível sobreviver à contaminação?  

Viver sem conviver com a desorganização, em concha. Tem medo de mim, de mim, de saber de mim? Quem é você? Sobram tantas suposições. Carro novo, roupa nova, trabalho surgindo em pencas na precariedade dos dias sem vazão. Trânsito caótico, aflição dormindo no ponto. Onde é que foram parar as vontades? Por que temos que nos esquecer daquilo que fomos de melhor? Por que não podemos ser ainda melhores do que fomos?

Será um viver em regressão? Fechar as portas que foram abertas, abafar as experiências, colocá-las num mostruário de fomes enredadas e nunca mais vividas. Não dá para zonear a zona de conforto? Você tem medo da dor? Dá para quebrar esse espelho? Dói mais com ele nos olhando todos os dias. Talvez se nos libertássemos dele, suportaríamos o corte e ficaríamos com as surpresas. Buscar a perfeição é fantasiar demais. Ser perfeito é uma fantasia?